A baixa produtividade brasileira não vem, em geral, de “falta de esforço” do trabalhador. Ela está muito mais ligada a fatores estruturais como a gestão ineficiente, a baixa qualificação técnica em algumas áreas, pouca adoção de tecnologia, burocracia e carga tributária alta e complexa e ainda a infraestrutura ruim.
Reduzir a jornada aumenta os custos?
Da forma como está sendo proposta, a resposta é
sim. Por exemplo, as empresas podem precisar contratar mais gente e há risco de
inflação de serviços. Mas, se a redução vier acompanhada de mudanças como aumento
de eficiência, menos retrabalho, menor absenteísmo e turnover, e trabalhadores
mais produtivos por hora, o impacto pode ser amenizado.
O
ponto-chave: produtividade por hora e não por dia - O Brasil ainda mede muito
produtividade pelo tempo presente, e não pelo resultado. Uma jornada menor pode
forçar o foco em tarefas essenciais, corte de atividades improdutivas e até
mesmo a melhoria de processos. Mas não é algo tão simples de se obter, pois precisaria acontecer no Brasil para isso
funcionar algumas coisas como pilares obrigatórios: 1. Gestão mais profissional,
onde as empresas precisam sair do modelo “presencial = produtividade”. 2. Tecnologia e automação com a digitalização
de processos para a redução desperdício de tempo. 3. Qualificação da mão de obra com treinamento técnico e educação
continuada. 4. Reforma organizacional
com menos burocracia interna e externa. 5.
Implementação gradual onde setores diferentes exigem soluções diferentes
(varejo/indústria/ serviços).
Se a mudança for feita “na marra”, sem transição,
como se propõe, como uma panacéia que resolverá os problemas, os resultados não
serão bons, pois haverá risco enorme de aumento de custos, fechamento de
pequenos negócios e aumento da informalidade. Portanto, a redução da escala 6x1
não depende só de ato ou vontade
política, depende de resolver (ou ao menos atacar) o problema estrutural
da produtividade.
Mas há um ponto importante: esperar a produtividade subir primeiro pode travar a mudança
indefinidamente e reduzir a jornada pode ser justamente um gatilho para
aumentar a produtividade. As duas coisas podem, e provavelmente precisam,
acontecer juntas. Do ponto de vista ideal,
a redução de jornada pode proporcionar foco em tarefas essenciais, corte
de atividades improdutivas e melhoria de processos
Um
alerta pode ser feito: O modelo
6x1 muitas vezes pode esconder
ineficiência. Empresas acabam compensando eventual má gestão com mais
horas, mais desgaste e ainda mais rotatividade. Nesse caso, com um gestor
atento, reduzir a jornada pode forçar maior eficiência. Porém devemos entender
que o Brasil não se preparou adequadamente para essa evolução e sem esses
ajustes, as pequenas empresas sofrerão mais, setores intensivos em mão de obra
sentirão fortemente e novamente o risco de aumento da informalidade
Deste
modo, podemos concluir que o Brasil possui um grave problema de produtividade,
incompatível com a evolução das relações do trabalho e então, manter a escala 6
x 1 ou não, não soluciona o problema.
O impacto negativo possível na maioria das pequenas
empresas seria principalmente na folha de pagamento que pesa muito no custo
total, cada funcionário é essencial (não tem “folga operacional”) e não existe
departamento, cada pessoa faz várias funções. Assim, reduzir horas sem ajuste significa
perda imediata de capacidade e ai surgem
três caminhos ruins: contratar mais alguém aumentando o custo, o dono trabalhar
mais e
reduzir o horário de atendimento que significa diminuir o faturamento. É
um risco muito real. A pequena empresa, não tem o mesmo poder de uma grande
corporação de diluir os custos, então o impacto é desproporcional. Mesmo que
uma pequena empresa seja bem gerida, precisará a melhorar ainda mais seus
processos e métodos e isso de qualquer forma apresentará um custo de certa
forma alto a curto prazo, mas que poderá ser absorvido a longo prazo (se bem
gerida).
Um risco na alteração da escala sem observar todo o
cenário, deverá trazer aumento da informalidade, acordos trabalhistas fora da
lei e redução nas contratações, impactando o nível de emprego negativamente.
Então podemos entender que o problema não é só a
redução da jornada, é tentar aplicar o mesmo modelo para realidades
completamente diferentes
Uma alteração na lei sobre a mudança de escala, deveria
contemplar uma implementação gradual, com regras diferentes para microempresas,
incentivos (tributários ou trabalhistas) e ainda flexibilidade de escala, entre
outros.
Enfim, entendemos que a atual discussão sobre a
redução da escala de trabalho não está sendo debatida com seriedade e sim
apenas servindo de palanque político-partidário, com erros grosseiros na
proposta. Não se deixem enganar por nenhum dos lados.
