ANO XIX

ANO XVII - Dezenove anos informando sobre o mundo do trabalho

terça-feira, 28 de abril de 2026

A PROPOSTA DE REDUÇÃO DA ESCALA 6 x 1 e a Produtividade no Brasil


A baixa produtividade brasileira não vem, em geral, de “falta de esforço” do trabalhador. Ela está muito mais ligada a fatores estruturais como a gestão ineficiente, a baixa qualificação técnica em algumas áreas, pouca adoção de tecnologia, burocracia e carga tributária alta e complexa e ainda a infraestrutura ruim.

Reduzir a jornada aumenta os custos?

Da forma como está sendo proposta, a resposta é sim. Por exemplo, as empresas podem precisar contratar mais gente e há risco de inflação de serviços. Mas, se a redução vier acompanhada de mudanças como aumento de eficiência, menos retrabalho, menor absenteísmo e turnover, e trabalhadores mais produtivos por hora, o impacto pode ser amenizado.

O ponto-chave: produtividade por hora e não por dia - O Brasil ainda mede muito produtividade pelo tempo presente, e não pelo resultado. Uma jornada menor pode forçar o foco em tarefas essenciais, corte de atividades improdutivas e até mesmo a melhoria de processos. Mas não é algo tão simples de se obter, pois precisaria acontecer no Brasil para isso funcionar algumas coisas como pilares obrigatórios: 1. Gestão mais profissional, onde as empresas precisam sair do modelo “presencial = produtividade”. 2. Tecnologia e automação com a digitalização de processos para a redução desperdício de tempo. 3. Qualificação da mão de obra com treinamento técnico e educação continuada. 4. Reforma organizacional
com menos burocracia interna e externa. 5. Implementação gradual onde setores diferentes exigem soluções diferentes (varejo/indústria/ serviços).

Se a mudança for feita “na marra”, sem transição, como se propõe, como uma panacéia que resolverá os problemas, os resultados não serão bons, pois haverá risco enorme de aumento de custos, fechamento de pequenos negócios e aumento da informalidade. Portanto, a redução da escala 6x1 não depende só de ato ou vontade política, depende de resolver (ou ao menos atacar) o problema estrutural da produtividade.

Mas há um ponto importante: esperar a produtividade subir primeiro pode travar a mudança indefinidamente e reduzir a jornada pode ser justamente um gatilho para aumentar a produtividade. As duas coisas podem, e provavelmente precisam, acontecer juntas. Do ponto de vista ideal, a redução de jornada pode proporcionar foco em tarefas essenciais, corte de atividades improdutivas e melhoria de processos

Um alerta pode ser feito: O modelo 6x1 muitas vezes pode esconder ineficiência. Empresas acabam compensando eventual má gestão com mais horas, mais desgaste e ainda mais rotatividade. Nesse caso, com um gestor atento, reduzir a jornada pode forçar maior eficiência. Porém devemos entender que o Brasil não se preparou adequadamente para essa evolução e sem esses ajustes, as pequenas empresas sofrerão mais, setores intensivos em mão de obra sentirão fortemente e novamente o risco de aumento da informalidade

Deste modo, podemos concluir que o Brasil possui um grave problema de produtividade, incompatível com a evolução das relações do trabalho e então, manter a escala 6 x 1 ou não, não soluciona o problema.

O impacto negativo possível na maioria das pequenas empresas seria principalmente na folha de pagamento que pesa muito no custo total, cada funcionário é essencial (não tem “folga operacional”) e não existe departamento, cada pessoa faz várias funções. Assim, reduzir horas sem ajuste significa perda imediata de capacidade e ai surgem três caminhos ruins: contratar mais alguém aumentando o custo, o dono trabalhar mais  e  reduzir o horário de atendimento que significa diminuir o faturamento. É um risco muito real. A pequena empresa, não tem o mesmo poder de uma grande corporação de diluir os custos, então o impacto é desproporcional. Mesmo que uma pequena empresa seja bem gerida, precisará a melhorar ainda mais seus processos e métodos e isso de qualquer forma apresentará um custo de certa forma alto a curto prazo, mas que poderá ser absorvido a longo prazo (se bem gerida).

Um risco na alteração da escala sem observar todo o cenário, deverá trazer aumento da informalidade, acordos trabalhistas fora da lei e redução nas contratações, impactando o nível de emprego negativamente.

Então podemos entender que o problema não é só a redução da jornada, é tentar aplicar o mesmo modelo para realidades completamente diferentes

Uma alteração na lei sobre a mudança de escala, deveria contemplar uma implementação gradual, com regras diferentes para microempresas, incentivos (tributários ou trabalhistas) e ainda flexibilidade de escala, entre outros.

Enfim, entendemos que a atual discussão sobre a redução da escala de trabalho não está sendo debatida com seriedade e sim apenas servindo de palanque político-partidário, com erros grosseiros na proposta. Não se deixem enganar por nenhum dos lados.