ANO XIV

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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

ENTREVISTA COM BERNADETE SILVEIRA, REPRESENTANTE DOS FUNCIONÁRIOS DO CAT

Tivemos uma conversa com Bernadete Evangelista da Silveira, ex-funcionária do CAT – Centro de Apoio ao Trabalho, sobre a atual situação dos funcionários e todo o processo que culminou na demissão dos 420 funcionários e fechamento (temporário) das unidades do CAT. Por força das circunstâncias, Bernadete acabou tomando a frente das negociações, representando os funcionários.


Acompanhem a entrevista realizada em 01/09/2014


BLOG - Há pouco mais de um ano a AVAPE, instituição contratante dos funcionários do CAT, começou a apresentar problemas financeiros e atrasar pagamentos e benefícios. Como vocês funcionários lidaram com esse problema?

BERNADETE - Tentamos de todas as formas uma posição da secretaria do trabalho SDTE sobre os atrasos, não obtivemos retorno e começamos a ser coagidos pela coordenação da época que começou a intimidar os funcionários com pressões psicológicas e imposições incabíveis.  Muitos estavam até passando fome devido aos atrasos nos pagamentos, outros estavam começando a receber cobranças jurídicas por atraso de alugueis e falta de pagamento de pensão alimentícia.

BLOG - Temos a impressão que as gestões desse período não atuaram de forma satisfatória em relação a situação dos funcionários. É correta essa impressão? Como foram as tratativas no início do problema e como estava nos últimos meses?

BERNADETE - É correta e positiva. Com omissão de informações e cada vez mais os salários e benefícios foram ficando com um espaço maior de atrasos.  Toda vez que se tentava um retorno a resposta era sempre que era problema com a AVAPE e que a secretaria estava tentando uma solução, com isto nunca se tinha um posicionamento sobre a situação que ficava cada vez mais caótica e o desespero já estava tomando conta da parte psicológica dos funcionários e a coordenação dizia que se não fizéssemos como eles mandavam era para procurarmos seus direitos.

BLOG - O CAT sempre foi uma referência nacional e mesmo internacional de sistema público de emprego e serviços relacionados. Essa situação prejudicou a população durante esse período, em sua opinião?

BERNADETE - A população teve um grande prejuízo devido a falta de motivação dos funcionários em atender com a mesma disposição que tinham antes destes problemas acontecerem.   Na minha opinião a secretaria foi grande responsável pelo prejuízo corrido para a população por falta de fiscalização dos serviços da empresa contratada, mas cobrava dos trabalhadores para que prestassem serviços de boa qualidade mesmo sabendo que já não havia condições internas para atendimento ao publico
   
BLOG - Em um determinado ponto houve um impasse pela falta de pagamentos e uma possibilidade de paralização (o que de fato aconteceu) e você assumiu, de certa forma, uma liderança no grupo. Como foi isso para você? Foi uma experiência nova?

BERNADETE - O impasse chegou a um patamar que tornou-se insuportável para os funcionários do CAT.   Não suportei ver tantas pessoas sendo humilhadas por estarem reivindicando seus direitos.   Tomei a liderança e assumi a causa para que estes trabalhadores (420 funcionários) não ficassem com sua dignidade mais abalada do que já estava.   Foi uma experiência nova e positiva porque lutei por uma causa justa, com o conhecimento de que estava indo pelo caminho correto, com coerência e cobrança das partes envolvidas.  Mesmo quando cogitei não lutar mais, tive muitos pedidos de socorro, então resolvi ir até o fim.

BLOG - Ainda nesse processo, alguns acordos e prazos foram descumpridos pela AVAPE. A SDTE ajudou ou intercedeu junto a AVAPE para a realização dos pagamentos? Foi levado em conta que a maioria dos funcionários eram bem treinandos, experientes e com bom tempo de casa, e que perder uma equipe assim poderia prejudicar a prestação de serviço para a população?

BERNADETE - Acordos e prazos foram descumpridos até após sentença dada pelo TRT e a secretaria não intercedeu ou ajudou porque estava sempre se resguardando para não comprometer sua posição como responsável pelo contrato.    Ocorreu falta de analise,vistoria e acompanhamento dos serviços que pagava para a empresa contratada deixando chegar ao que hoje encontramos " Um CAT fechado, sem atendimento  a população e com os funcionários tendo que entrar na justiça para garantir seus direitos.

BLOG - Hoje o CAT está fechado e a população usuária do serviço está prejudicada. Houve uma licitação que está “sub judice” e os CAT não podem voltar a funcionar. Há algum tipo de compromisso da SDTE com os funcionários, para que sejam contratados pela empresa vencedora? Acha que isso pode acontecer?

BERNADETE - Com o fechamento dos postos do CAT os munícipes ficaram com os serviços reduzidos e direcionados ao Poupatempo e a SERT que não comporta a quantidade de atendimento para suprir a demanda.    Existe um Pregão Eletrônico que ainda não teve sua finalização impedindo o retorno dos postos.   Assim que ocorrer a liberação e a informação da empresa vencedora, a secretaria já possui uma lista com alguns nomes de  funcionários que pretendem aproveitar, nem todos com a mesma qualidade que o CAT possuía, e, nem todos aceitarão devido a informação de que os salários novos irão ter uma diferença inferior em relação a antiga muito grande.

BLOG - Quais os direitos que vocês conseguiram garantir nesse difícil momento de demissão em massa? Como foi esse processo?

BERNADETE - Conseguimos a liberação no inicio do ano do pagamento do beneficio e salários em atraso de três meses, posteriormente novos atrasos foram ocorrendo e após varias audiências no MTP, TRT conseguimos sanar atraso por atraso mesmo sem pagamento das multas.   No encerramento do contrato que aconteceu em 01/09/2014 continuamos com audiência no MTE, onde conseguimos a liberação do FGTS e do SD a todos os funcionários demitidos, não conseguimos que o dinheiro que a Avape tem para recebimento da ultima nota de empenho fosse repassada ao sindicato para que fosse sanado parcialmente as rescisões, que mesmo assim não quitará 50% das mesmas. O sindicato SEIBREF que também pegou a causa desde o inicio porque o que nos representava não se posicionou em nenhum momento, tentou  que este valor fosse repassado ao mesmo para desmembrado, e  mesmo com a aprovação da Avape, não tivemos sucesso e o sindicato estará entrando com uma ação coletiva para que isto possa vir a acontecer ,como sabemos isto levará muito tempo para ser julgado.    Mesmo com todas estas conquistas deveremos entrar com processo para recebimento das rescisões, diferenças, multas, etc. que é o informado nas vias das rescisões.

BLOG - Gostaria de fazer alguma outra consideração?

BERNADETE -  Foi uma luta árdua porque estávamos batendo de frente com a empresa contratada (Avape), secretaria (SDTE) e a administração do CAT.  Me posicionei em todas as situações em grandes órgãos públicos como; MPT, TRT e MTE e todos com um grande comprometimento com os trabalhadores por tratar-se de cunho alimentar.

 Não acreditaram que chegássemos tão longe nas nossas reivindicações e conquistas neste período.   Acredito que foi muito valido todo meu esforço pois muitos puderam hoje resgatar, mesmo que uma pequena parte de seus direitos a possibilidade de ver que seus direitos são garantidos por lei e através da minha insistência e permanência na causa, acreditaram que eu poderia fazer a diferença para cada um que não estavam enxergando uma luz no fim do túnel. Lutei pela causa e pelos trabalhadores que tinham a obrigação de passar uma tranquilidade que não estavam tendo, aos munícipes, com um bom atendimento, mesmo com seu estado psicológico totalmente abalado. Cada um hoje deverá entrar com seu processo trabalhista e seguir a vida da melhor forma possível. Mostrei a todos que sem o sacrifício da busca é impossível a alegria da conquista e peço a Deus abençoe a todos.


BLOG - Obrigado pela entrevista!

Bernadete Evangelista da Silveira era funcionária do CAT desde 2010, iniciou como agente de recrutamento e seleção e nos últimos meses atuava como supervisora de uma das unidades do CAT na zona leste de São Paulo.

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